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Motociclismo e segurança

As cruzes das estradas


30/09/2014 10h44

Meus amigos, amantes das duas rodas. Determinados assuntos que citamos em nossas crônicas, podem trazer certo desconforto, mas quando esses temas servem como alertas para o nosso dia-a-dia pelas estradas, devemos encará-los como ensinamentos e experiências vividas.

No início de setembro, acompanhando os Calendários de Eventos do Jornal Motorcycle e do Site Mototour e, fazendo aquilo que adotei como filosofia de vida após minha aposentadoria, fui pegar a estrada para curtir mais um grande evento motociclístico, na fantástica e acolhedora Cidade mineira de Araxá, terra de Dona Beja, onde ocorreu o 13º Sem Destino Motofest, ao qual, rendo minhas homenagens pelo brilhantismo do evento, com bandas fantásticas, ambiente maravilhoso, muitos novos amigos, e amigas é claro, surgidos durante aqueles três dias de evento naquela típica, e inconfidente, Terrinha das Minas Gerais.

Na ida, após 620 quilômetros rodados, aproximadamente, uma primeira parada para pernoite na charmosa Cidade de Formiga/MG, onde tive a oportunidade de conhecer, já ao entardecer, alguns pontos turísticos, entre eles a linda Paróquia de São Vicente Ferrér fundada em 1780, além da oportunidade de saborear aquela “comidinha caseira mineira” a qual, sabe prender um visitante pelo estomago.

No dia seguinte, e bem cedo, partimos, eu e minha Negona III, para Araxá onde passamos dois dias muito agradáveis, retornando no inicio de um belo domingo e esticando até Caxambu, para então, na segunda-feira voltar ao convívio familiar na Cidade Maravilhosa. Porém, o que muito me chamou a atenção nesses quase 1700 quilômetros de estradas mineiras, foi o imenso número de cruzes fincadas nas beiras das estradas, significando que ali, exatamente naqueles locais, vidas foram ceifadas por acidentes provocados, ou por fatalidades inesperadas ocorridas, no que, para quem passa e observa transmitem, tanto uma certeza como uma dúvida ao mesmo tempo, ou seja, logicamente a certeza de que famílias foram enlutadas, e a dúvida de como pode ter acontecido aquela tragédia onde só restaram as marcas e, apenas uma cruz, de cimento ou de madeira, destacando aquele local.

Num desses pontos, levado pela curiosidade e ao mesmo tempo como forma de invocar, ao Supremo Criador, pelo descanso eterno daquela vítima, parei em um local seguro ali próximo, e fui prestar minha singela homenagem diante daquele marco com os dizeres: ....... 03-08-73 / 29-05-2014.

A cerca de 100 metros daquele local havia um velho ônibus, estacionado junto ao acostamento da rodovia, com um toldo improvisado por uma imensa lona amarelada, pela poeira, que abrigava do sol escaldante uma família de quatro pessoas.

Estes, utilizando uma fritadeira elétrica energizada pelo motor do ônibus, uma espremedora de cana, alguns copos de plástico e um tradicional bule gigantesco de alumínio, tiravam seu sustento diário vendendo pastel de queijo, bolinho de aipim e caldo de cana com limão, tudo isso seguramente na beira daquela rodovia federal, a famosa BR 262.

Após aproximar-me, saudando-os com um educado “ boa tarde”, fiz o meu pedido sobre que era oferecido e perguntei, àquele senhor que manipulava as guloseimas, se ele havia presenciado aquele acidente, ou se foi um atropelamento, uma vez que, aquele símbolo estava tão próximo ao seu “estabelecimento comercial” e, por fim, quais foram as causas do ocorrido.

Sem pestanejar, aquele trabalhador brasileiro, longe de qualquer ironia sobre o ocorrido, respondeu-me: "Foi uma fechada”, seu moço!.

Logicamente, e levado pelas circunstâncias de uma reta com total visibilidade para ambos os lados, retruquei dizendo: Mas, uma fechada numa reta dessas?

E ele respondeu: Uma “fechada de olhos”, às 05:30h da manhã, onde a vitima era um jovem senhor motociclista, de meia idade, que após uma balada, retornava para sua Cidade e foi traído pelo sono.

Diante da minha surpresa com a resposta, ele concluiu dizendo: Segundo uma testemunha, que vinha pouco atrás dele, viu quando, inesperadamente, e sem frear, a moto saiu da faixa de rolamento e despencou da estrada.

O piloto, mesmo socorrido por uma ambulância que chegou rápido ao local, veio a falecer ainda em seu interior.

Amigos motociclistas. Tenho escrito muito sobre acidentes com motociclistas como uma forma de alertar sobre os perigos das estrada, as surpresas de uma viagem, as consequências de uma condução indevida por inexperiência na pilotagem desses nossos bólidos e, principalmente, sobre a mistura, bebida alcoólica, pilotagem e cansaço.

A explicação dada por aquele leigo, mesmo sem qualquer conotação acusativa, nos leva a ratificar, de forma contundente, que na condução de uma motocicleta, todo e qualquer descuido, distração, piscada de olhos, ou outras formas que tiram a atenção do condutor em uma estrada, é pago com um preço muito alto, o que fatalmente deixarão famílias saudosas pela perda e, no máximo, alguns marcos conhecidos como "As Cruzes das Estradas”.

Que DEUS, em sua infinita bondade, nos preserve e nos conserve.

Boas estradas.

Cel Dario Cony
28 textos publicados

Coronel da PMERJ, já aposentado. Motociclista Brevetado, com o CFoMES - Curso de Formação de Motociclistas Escoltas e Segurança, concluído em 1979 na Instituição. Como Capitão, foi Coordenador de diversos desses Cursos no Batalhão de Polícia de Choque (BPChq). Motociclista desde os 21 anos, é casado com Nádia Cony, e Presidente do Family Cony's Motocycle Group, RJ. Como experiente motociclista, é possuidor do Patch de 100.000 Milhas do HOG ( HARLEY OWNERS GROUP). Sua paixão são as estradas, as quais, curte com a sua conhecida " Negona III", uma Harley Davidson, Street Glide / Preta e Dourada, 2016. Seu sonho: Conscientizar os irmãos motociclistas que: " A Motocicleta é um meio de curtir a vida, e não, um objeto para buscar a morte".

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